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Poesias com vídeo clipe

Pérola com íris avelã

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interpretada por  Adaury Farias

Pérola com íris avelã

Para Elise, minha neta, escrito antes da pandemia de covid-19

Criada pelo destino com muito cuidado e muito esmero, Linda e delicada com se fosse uma pérola mesmo. Depois de rir, de brincar e espalhar carinho, Salta pro colo da vó e se aconchega bem de mansinho. Ali relaxa e se entrega ao sono profundo. A imagem do sorriso, naquele rostinho lindo, Revela que aquele colo é o melhor lugar do mundo. Depois, dormindo entre travesseiros, parece sonhar... Parece uma modelo saída das telas de Renoir. De manhã, os raios fúlgidos do sol, Que invadem a janela num clarão de ciúme fugaz, Flagram nós três agarradinhos sob o lençol. E então ela desperta com um sorriso sagaz Atenta à saudação que lhe fazem os bem-te-vis e sabiás. Seus olhinhos ao se abrirem, com suas íris avelã, Iluminam nossa manhã com encanto e alegria, Cativando nossos corações ao acordar sorrindo, Contagiando com graça e amor outro dia de domingo.

Streptease

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interpretada por  Cid Moreira

Streptease

(Música livre, cochichos, vinhetas, Risos, drinques, cervejas...) No palco aberto, Despindo-se silenciosamente, Entre sombras e raios de luz: Ela! Intrepidamente nua! Sensualmente bela! Estonteante aos que a veem. Vulgar, aos sexistas que a ignoram. Murmúrios, clics, “flashes”... Não a intimidam no suave E sereno “striptease”. E cada vez mais nua, Mais linda, mais pura. Um ao longe se encanta. Outro a desdenha. Aquele outro ainda se levanta, Fotografa e se apaixona. O bêbado desatento pergunta: - Quem é? Quem é? - É lua cheia emergindo suavemente do Amazonas.

Curta caminhada

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interpretada por  Adaury Farias

Curta caminhada

Lá pelos meus dez anos de idade, turrão à beça, Ai do colega que me apelidasse! Partia pra luta, era tapa, chute e palavrão. A briga durava até que alguém nos separasse.  Puto da vida corria pra longe e ficava com cara de mal.  Depois, na bola de rua, tudo voltava ao normal. Lá pelos vinte, eu era dono do mundo.  O iluminado. Eu era o escolhido!  Eu sabia de tudo! O resto? Era só pano de fundo. Segui assim, achando que havia crescido. Aos trancos consegui chegar aos quarenta.  O tempo passou como um corisco petulante Que nem vi minha largura ficar tão grande.  No mais, tudo igual ao que era antes. Agora, aos sessenta, devia ser resiliente, Deixar tudo por menos, ser menos valente, Me passar por trouxa e até fazer cara de palhaço. Mas não aguento atitudes que me enchem o saco.  Foda-se! Não é agora que vou levar desaforo pra casa. A caminhada foi longa e ainda não estou fraco. Falou merda, chuto logo o pau da barraca. Quando, ou se, chegar aos oitenta, sem Alzheimer,  Vou continuar contando sempre que puder,  Sem falsa modéstia, remorso ou culpa guardada, Que valeu cada sorriso, cada abraço E cada porrada nessa curta caminhada.

A dança do guará com o bicho preguiça

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interpretada por  Deury Farias

A dança do guará com o bicho preguiça

O fogo se foi, restaram nuvens de muita fumaça. Num galho mais alto, vermelho, só o Guará. Verde era o campo, agora tão negro! Num tronco enterrado, aos poucos desponta, Com olhos molhados, o Bicho Preguiça. Os dois desgarrados, no resto de brasa. Guará, exultante, não canta nem pia. O Bicho Preguiça, em sincronia, nem assobia. Guará convida o Bicho Preguiça, “pruma” rápida dança. Os dois se entrelaçam, sobreviventes daquela triste agonia. O vento se envolve e orquestra o ritmo da festa. Toca rock, funk de rua, batuque, marabaixo. O fogo se alastra na brasa que resta Os dois agarrados não saem do primeiro passo Cai por terra a esperança e tudo se acaba. A dança do Guará com o Bicho Preguiça Quão interessante neste instante seria?! O vento muda o ritmo com todo afã E inicia a segunda sonata de Chopin ...

Espírito de porco

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recitada por  Adaury Farias

Espírito de porco

No alto do morro, um ronco estranho. Um espírito louco emana do vento, Atravessa os sonhos e o frio da noite. Sombra negra de olhar vermelho,  Transforma o sossego em agitada misura. Na noite escura sai a esmo e à sorte. Assusta os namorados atrás dos postes, Os moleques, atrás das moitas. Nas casas humildes, virgens beatas Se excitam com o gemido erótico. Apavora o prefeito neurótico, ainda acordado,  Contando dinheiro às três da manhã. Esposas abandonadas nele se enroscam. O assaltante se esconde atrás do sobrado. A cidade se espanta e aos poucos se amansa. A madrugada termina e o ronco se esvai. No alto do morro, na passagem secreta, Adentra a sombra pela porta da frente, Pela porta dos fundos outra sombra se vai. O espírito louco assombra a cidade Das mentes ociosas na noite vazia. Relaxado se deita ao lado da companheira  Já satisfeita pelo outro que pelo fundo saia. O espírito de porco perturba os outros, Carrega consigo o fel da maldade. Descansa pensando que está livre de tudo.  Também é vítima da própria iniquidade.

Pororoca

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recitada por  Eury Farias

Pororoca

Nem faz tanto tempo assim ... Pirarucus, curupetés, curimatãs, tucunarés... Saltavam, batiam n´água Como quem diz: Tô aqui! Tô aqui! Num urro medonho a onda se impunha: Barrenta, gigante, violenta...  Pororoca assombrava, desbarrancava tudo à sua frente. Virava casa, virava casco, virava barco, virava lenda. Há pouco, tempo nas ondas fracas...  Garrafas pet, marmitex, caixinhas tetra pak... Branquinhas, acarás, tralhotos, matupiris... Pororoca mansinha, fazia onda pros surfistas e jet skis. Hoje, barragens, “bufaladas”, matriz energética,  Risco iminente, lucro cessante, hidrelétricas... Pirarucus, curupetés, curimatãs, tucunarés... Branquinhas, acarás, tralhotos e matupiris... Se bronzeando de peito pra cima  Na superfície fria da água barrenta, No leito largo de baixo calado do indigente rio.   Pororoca já meteu medo.  Virou casco, virou festa, festival, virou lenda!  Virou lenda... Sumiu!

Indelével matiz

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recitada por  Leury Farias

Indelével matiz

Havia um canto alegre entre tocas e buritis. Num galho um canário... noutro uma guariba a guinchar... Na terra, no pé da árvore, um pequeno e lento jabuti. Mais adiante, no igarapé, mais um destino a encontrar. Havia mais que a simples melodia! Havia uma espera de tocaia urdida. Vida livre na natureza exuberante  Cenário perfeito de seres tranquilos. Impróprio para seres pensantes Vindo de tão longe, tão distante ... Caminhos tão diferentes, tão errantes ... Busca incessante a persegui-los Desliza a canoa entre os aguapés. O estalo do disparo vem de lá do igarapé! Canário muda pra outro galho qualquer. O resto do dia nem um pio sequer. Quedou-se a guariba por terra abatida No ajunte, também foi o jabuti. Na outra margem, outra linha do destino. Imagem bizarra gravada na mente, indelével matiz, Mudo, sem poder mudar o caminho. Restou um silêncio absurdo entre tocas e buritis.

Acasalamento dos biguás sobre a Pedra do Guindaste

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interpretada por Gleury Farias

Acasalamento dos biguás sobre a Pedra do Guindaste

Olhar firme, sempre atento. Vigilante da vida e de tudo ao redor. Em inusitado momento, sem que se espante, Em voo rasante, com um trinar, um tanto seco, Sem se importar com aquele sujeito, Uns chamam de mergulhão, outros de biguá, O fato é que eles vêm de longe, De muito longe, vêm além-mar. Sentam-lhes no ombro, cagam-lhes na cabeça. Pacífico e incólume, só observa. E ali mesmo, um tanto fuinhas, acasalam. Depois, em duplas, voam rumo aos aturiás. Montam seus ninhos... Eclode a vida! No tempo certo retornam para o mesmo ato Cheios de estardalhaços em ligação simbiótica. Frenéticos, voltam com a mesma dança erótica! Repetem contentes a prática da última parte Com o consentimento atento do eterno Vigilante. Completa-se assim o ciclo sobre a Pedra do Guindaste.

Desamigo

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interpretada por Adaury Farias

Desamigo

Se jogarem pedras em minha direção, Me esquivo com sorriso e sutileza. Se for quebranto e praga de maldição, Minha fé será sempre meu escudo de defesa. Críticas jamais me abalarão. Ninguém é perfeito! Elas me dão certeza que sou bem melhor do meu jeito. Xingamentos com palavras chulas de baixo calão ... Não dou ouvidos pra essas coisas do cramunhão! Tudo isso pode vir no calor da emoção De um amigo do peito por ciúme ou discussão. Vindo de amigo sempre haverá chance de perdão. Mas se vir do amigo que ilude e que engana, Desonesto, oportunista e sacana, Que depois da bronca, fica com cara de bronha, E, no outro dia, continua sem vergonha Como se nada tivesse acontecido. Isso é coisa de gente dissimulada e ruim. Esse é capaz de vender a própria mãe pro Cussaruim. Esse amigo não quero e nem preciso. Não é amigo, nem inimigo. É só um excremento podre e nojento. E pra todos será sempre um perigo. Um falso amigo. Um desamigo!

A raça

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interpretada por Adaury Farias

A raça

Ao lado do vaso com rosa do deserto Vi um gato com cara de sapo. Um pouco mais à sua frente, Outro com cara de cachorro-quente. Talvez, um estivesse com fome e, O outro, quem sabe? O prato da vez. O primeiro, incrivelmente, coaxava. O segundo, parecia que latia. Num pulo subiram no muro, Que estava revestido com unha-de-gato, E, em cima do telhado da garagem, Tête-à-tête, foram às vias de fato! Em estridente e bizarro cenário, Como duas lagartixas, se entrelaçaram. Era fogo ardente, sem chama, sem fumaça... Parecia rixa entre dois kamikazes! Quando dei fé, já tinham feito as pazes. E, juntinhos, cochilavam no tapete da sala. Cada qual com seu modo de garantir a raça.

Pé de moleque

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interpretada por Deury Farias

Pé de moleque

No chão limpinho do terreiro, Balões e bandeirinhas de papel. Dança de roda e roda que roda. Cavalheiros dançando, tirando o chapéu. Cantigas brejeiras. Um grito que diz: “Olha pamonha! Olha canjica!” O vento espalha calor e fumaça, Fagulhas de estrelinhas pelo céu! Guizos de alegria se misturam Com estrondos de festim. Saias rodadas ensaiam: “A lavadeira faz assim, assim, assim...” Calças velhas remendadas... “Passa-passa gavião, todo mundo passa...” Aluá de abacaxi, quentão, Fogos de artifícios de montão! Passa fogueira de mãos dadas. Santo Antônio disse, São Pedro confirmou Que você vai ser minha namorada Que São João mandou. Corrida no saco. Vinte e um. Quebra-pote. Pau-de-sebo... Prende todos na cela dos desejos! Paga prenda, rouba beijo, põe todos na prisão. Corpo quente, agitado, Passa em frente, passa bastão. Estalinho corre solto pelo chão, Pega no pé, pé-de-moleque. Pula fogueira, corre e grita... Mundo encantado é festa de São João.

Goiabal

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interpretada por Deury Farias

Goiabal (praia de Calçoene)

Chuva fina, paisagem incrível. Repiquete sobre a estradinha de terra batida Búfalos, vacas, cavalos desgarrados da manada, Descansam tranquilos na estreita faixa de terra visível. - Vrum... Vruuum... Vruuuuuuuuuuum ... Assustam-se anuns, garças, guarás, colhereiras... Em revoada, tingem o céu Num tom degradê de cinza e púrpura. Gravetos secos de murici, embaúba, Barbatimão, vinagreira, cupiúba... Estalam-se ardentes sob tainhas, Corvinas, tucunarés, gurijubas... Levemente ticados, sem muito tempero! Apenas sal e limão, pra não ficar sem graça. Delícias ao molho de tucupi com pimenta. E, claro, uma boa dose de cachaça. A brisa fria do oceano, entre cavalos e currais, Aquece a cevada sobre a mesa. À sombra do enorme cajueiro, rola papo cabeça: Palpites sobre neuroses cardíacas. Nativos, com estórias medonhas de pescarias, Turistas, com histórias podres da política. Espalhados pelo quintal, ciscam cismados, Gordos patos, galinhas caipiras, marrecas tão belas Sinal de ensopado, canja ou cabidela, Ao crepúsculo desse dia tão sagrado e tão profano! Goiabal, tão perto do céu, tão perto do mar, Tarja preta pro estresse urbano!

Linda Madalena

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interpretada por Walmar Jucá

Linda Madalena

Linda Madalena, o que fizeste com meu peito Não se faz com mais ninguém. Partiste sem sequer um adeus ou até logo. Dilaceraste, trucidaste um coração, Que ferido, abandonado, pôs na mala toda tristeza. Que depois se abriu pra alegria de outro alguém. E agora, Madalena? Não tem terço, não tem choro. Nem promessa, remorso, pena ou vela. Estou esperto, estou aberto, já não vivo de novela. E agora Madalena, és apenas uma esquina! Uma bolsa, um tostão. Uma bunda de fora na escuridão. Linda Madalena... fostes lírio, Fostes orquídea, rosa, laço de amor ... Encanto, poesia, sortilégios da paixão, fantasia e emoção. Madalena... Tão linda que tu eras! Que pena! Essa imagem não esqueço e nem renego. Resta-te agora o desalento de somente seres Seca e insossa tiririca-do-brejo

Umbilical

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interpretada por Adaury Farias

Umbilical

À minha Mãe Deusolina Salles Farias (Adaury Farias) Lá se vão tantos anos e lembranças do tempo de eu criança, ainda me enchem de alegria. Na mesa da sala, aquela mão macia, apoiando a minha que, sem coordenação motora, cobria de qualquer jeito as letras pontilhadas do caderno de caligrafia. Ainda ouço aquela voz suave me fazendo repetir, uma a uma, as cinco palavrinhas mágicas, tão simples e perfeitamente adequadas, que desde lá repito de maneira automática. Como esqueceria aquele sorriso largo e o olhar reluzente de imenso entusiasmo, que se abriu, ao me ouvir, pela primeira vez, soletrar sozinho, o nome completo de uma loja da rua? Mas também não esqueço o singelo olhar a me corrigir quando deslizava entre as frases. Um dia, inda menino, quando dei fé, me fiz de adulto e parei de chorar ao perceber que a dor maior era nela e não no machucado do meu pé. E a partir de então vi que nunca estive sozinho na alegria ou na dor. Parecia que o cordão umbilical ainda estava ali, pois tudo nela se refletia. O tempo dispara e nos separa pelo tom das frontes: uma castanha, outra encanecida. No percurso da vida, paixões e amores se instalam e aos poucos desabam como terras caídas. Nesse tempo turvo, egoísta que sou, o que me marca é não tê-la aqui pra aliviar a minha dor. Só o amor dela tinha o poder de nunca acabar, um amor eterno, fiel e incondicional.

Avenida Raimundo Alvares da Costa, 329-A Centro    Macapá-AP

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