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Poesias com vídeo clipe

Curta caminhada

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interpretada por  Adaury Farias

Curta caminhada

Lá pelos meus dez anos de idade, turrão à beça, Ai do colega que me apelidasse! Partia pra luta, era tapa, chute e palavrão. A briga durava até que alguém nos separasse.  Puto da vida corria pra longe e ficava com cara de mal.  Depois, na bola de rua, tudo voltava ao normal. Lá pelos vinte, eu era dono do mundo.  O iluminado. Eu era o escolhido!  Eu sabia de tudo! O resto? Era só pano de fundo. Segui assim, achando que havia crescido. Aos trancos consegui chegar aos quarenta.  O tempo passou como um corisco petulante Que nem vi minha largura ficar tão grande.  No mais, tudo igual ao que era antes. Agora, aos sessenta, devia ser resiliente, Deixar tudo por menos, ser menos valente, Me passar por trouxa e até fazer cara de palhaço. Mas não aguento atitudes que me enchem o saco.  Foda-se! Não é agora que vou levar desaforo pra casa. A caminhada foi longa e ainda não estou fraco. Falou merda, chuto logo o pau da barraca. Quando, ou se, chegar aos oitenta, sem Alzheimer,  Vou continuar contando sempre que puder,  Sem falsa modéstia, remorso ou culpa guardada, Que valeu cada sorriso, cada abraço E cada porrada nessa curta caminhada.

Espírito de porco

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recitada por  Adaury Farias

Espírito de porco

No alto do morro, um ronco estranho. Um espírito louco emana do vento, Atravessa os sonhos e o frio da noite. Sombra negra de olhar vermelho,  Transforma o sossego em agitada misura. Na noite escura sai a esmo e à sorte. Assusta os namorados atrás dos postes, Os moleques, atrás das moitas. Nas casas humildes, virgens beatas Se excitam com o gemido erótico. Apavora o prefeito neurótico, ainda acordado,  Contando dinheiro às três da manhã. Esposas abandonadas nele se enroscam. O assaltante se esconde atrás do sobrado. A cidade se espanta e aos poucos se amansa. A madrugada termina e o ronco se esvai. No alto do morro, na passagem secreta, Adentra a sombra pela porta da frente, Pela porta dos fundos outra sombra se vai. O espírito louco assombra a cidade Das mentes ociosas na noite vazia. Relaxado se deita ao lado da companheira  Já satisfeita pelo outro que pelo fundo saia. O espírito de porco perturba os outros, Carrega consigo o fel da maldade. Descansa pensando que está livre de tudo.  Também é vítima da própria iniquidade.

Pororoca

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recitada por  Eury Farias

Pororoca

Nem faz tanto tempo assim ... Pirarucus, curupetés, curimatãs, tucunarés... Saltavam, batiam n´água Como quem diz: Tô aqui! Tô aqui! Num urro medonho a onda se impunha: Barrenta, gigante, violenta...  Pororoca assombrava, desbarrancava tudo à sua frente. Virava casa, virava casco, virava barco, virava lenda. Há pouco, tempo nas ondas fracas...  Garrafas pet, marmitex, caixinhas tetra pak... Branquinhas, acarás, tralhotos, matupiris... Pororoca mansinha, fazia onda pros surfistas e jet skis. Hoje, barragens, “bufaladas”, matriz energética,  Risco iminente, lucro cessante, hidrelétricas... Pirarucus, curupetés, curimatãs, tucunarés... Branquinhas, acarás, tralhotos e matupiris... Se bronzeando de peito pra cima  Na superfície fria da água barrenta, No leito largo de baixo calado do indigente rio.   Pororoca já meteu medo.  Virou casco, virou festa, festival, virou lenda!  Virou lenda... Sumiu!

Indelével matiz

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recitada por  Leury Farias

Indelével matiz

Havia um canto alegre entre tocas e buritis. Num galho um canário... noutro uma guariba a guinchar... Na terra, no pé da árvore, um pequeno e lento jabuti. Mais adiante, no igarapé, mais um destino a encontrar. Havia mais que a simples melodia! Havia uma espera de tocaia urdida. Vida livre na natureza exuberante  Cenário perfeito de seres tranquilos. Impróprio para seres pensantes Vindo de tão longe, tão distante ... Caminhos tão diferentes, tão errantes ... Busca incessante a persegui-los Desliza a canoa entre os aguapés. O estalo do disparo vem de lá do igarapé! Canário muda pra outro galho qualquer. O resto do dia nem um pio sequer. Quedou-se a guariba por terra abatida No ajunte, também foi o jabuti. Na outra margem, outra linha do destino. Imagem bizarra gravada na mente, indelével matiz, Mudo, sem poder mudar o caminho. Restou um silêncio absurdo entre tocas e buritis.

Desamigo

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interpretada por Adaury Farias

Desamigo

Se jogarem pedras em minha direção, Me esquivo com sorriso e sutileza. Se for quebranto e praga de maldição, Minha fé será sempre meu escudo de defesa. Críticas jamais me abalarão. Ninguém é perfeito! Elas me dão certeza que sou bem melhor do meu jeito. Xingamentos com palavras chulas de baixo calão ... Não dou ouvidos pra essas coisas do cramunhão! Tudo isso pode vir no calor da emoção De um amigo do peito por ciúme ou discussão. Vindo de amigo sempre haverá chance de perdão. Mas se vir do amigo que ilude e que engana, Desonesto, oportunista e sacana, Que depois da bronca, fica com cara de bronha, E, no outro dia, continua sem vergonha Como se nada tivesse acontecido. Isso é coisa de gente dissimulada e ruim. Esse é capaz de vender a própria mãe pro Cussaruim. Esse amigo não quero e nem preciso. Não é amigo, nem inimigo. É só um excremento podre e nojento. E pra todos será sempre um perigo. Um falso amigo. Um desamigo!

Goiabal

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interpretada por Deury Farias

Goiabal (praia de Calçoene)

Chuva fina, paisagem incrível. Repiquete sobre a estradinha de terra batida Búfalos, vacas, cavalos desgarrados da manada, Descansam tranquilos na estreita faixa de terra visível. - Vrum... Vruuum... Vruuuuuuuuuuum ... Assustam-se anuns, garças, guarás, colhereiras... Em revoada, tingem o céu Num tom degradê de cinza e púrpura. Gravetos secos de murici, embaúba, Barbatimão, vinagreira, cupiúba... Estalam-se ardentes sob tainhas, Corvinas, tucunarés, gurijubas... Levemente ticados, sem muito tempero! Apenas sal e limão, pra não ficar sem graça. Delícias ao molho de tucupi com pimenta. E, claro, uma boa dose de cachaça. A brisa fria do oceano, entre cavalos e currais, Aquece a cevada sobre a mesa. À sombra do enorme cajueiro, rola papo cabeça: Palpites sobre neuroses cardíacas. Nativos, com estórias medonhas de pescarias, Turistas, com histórias podres da política. Espalhados pelo quintal, ciscam cismados, Gordos patos, galinhas caipiras, marrecas tão belas Sinal de ensopado, canja ou cabidela, Ao crepúsculo desse dia tão sagrado e tão profano! Goiabal, tão perto do céu, tão perto do mar, Tarja preta pro estresse urbano!

Mangalarga e a ponte que vai do nada a lugar nenhum

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interpretada por Leury Farias

Mangalarga e a ponte que vai do nada a lugar nenhum

Sob sol ou inverno de muita chuva Em trôpego trote, breca o cavalo Na cabeceira da ponte do Rio das Malas. Mata-burro, feito de massaranduba. Olhar arredio. Olha prum lado, olha pro outro, Circunda em rápidos passos pelo lado da ponte. A estrada é firme e muito segura! O silte arenoso dá a pista que por ali nunca houve argila. Cabeça erguida e todo orgulhoso, O puro-sangue, a galope, segue adiante. Sobre a ponte, nem carro, nem gato passa! Sob ela, nem rio ou riacho, igarapé ou vala! Pra que a ponte, estiva ou pinguela? A ponte do Rio das Malas com mata-burro, Engana burro, mas não cavalo Mangalarga

Quenguinha, a flor da sarjeta

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interpretada por Adaury Farias

Quenguinha, a flor da sarjeta

Brota na praça, no pé da mangueira, Na sarjeta da avenida, na rua inteira, Junto à Vassourinha e ao Quebra-Pedra, Em meio à moita de Jurubeba... Flor Albina, ninguém carrega. No asfalto quente, no pé do poste... Em cima do cimento da calçada... A flor amarela surge sempre forte E majestosa pra começar outra jornada. Damiana dá em toda parte, por todo lado. No sol, embaixo da rede elétrica, Atrás do muro ou da cerca da casa... Em todo canto. Que plantinha danada! Flor-do-Guarujá, simples e bela. Cedo se abre, cintilando a luz. Por volta de uma da tarde se fecha Escondendo a flor que tanto seduz. Encorpada e viçosa, frente à parede nua, Chanana exuberante se destaca! As flores e folhas colorem a cinzenta rua Carregada de fumaça, com seu amarelo laca. O gari acha um simples mato e nem se toca, Num golpe curto e certeiro da enxada Lá se vai a moita inteira de Turnera Junto aos cacos e poeira da calçada. Chanana ou Turnera ou Damiana ou Albina... Serve-se no chá, na salada ou na cozinha. Entre tantos nomes o que mais instiga Nessa plantinha, rica, danada e saidinha, Não é por que dá pertinho da urtiga, É que também é chamada de Quenguinha!

Dois mundos

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interpretada por Osvaldo Simões

Dois mundos

Em um só mundo, duas verdades distintas, - Uma que esbanja, se exibe e posa de boa pinta. - Outra que sofre, murmura e carrega o peso do mundo. É delírio e horror tanta ilusão sob o mesmo céu. - É delírio porque no fundo tudo é esplêndido e lindo. - É horror porque estamos todos no mesmo bordel. Apenas uma coisa será real: Todos teremos o mesmo final.

Avenida Raimundo Álvares da Costa, 329-A Centro    Macapá-AP

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