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Poesias em Texto

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Ciúme do aru

Pra onde tu vai, rapá? Vou pra praia da Fazendinha Que tu vai fazê pra lá? Vou banhá eu e minha minina. Que mina doida é essa? É minha mina Cristina. É minha mina Cristina. A maré tá de vazante. E a praia cheia de lama Mana deixa de drama Primeiro vou pro futilama. Mas não tem pião bastante Prum time poder formar. Eu chamo a turma do mangue Pra modo a gente jogar E esperar a maré lançante Co´a minha mina banhá. Tu tá é com má intenção Com essa mina que tu vai levar. Segura teu ciúme Eu quero pra ela mostrá Ela me chama de aru Na água vou me revelar Vou mostrar que é aru, Na água vou me atirar Ness’água tem candiru Num cuida só pra tu vê! Num tô nem aí pra tu Co'a mina vou me banhá Nem sei o que é candiru E eu quero me aboletá Eu quero me aboletá Ele vai entrá no teu pinto E nela noutro lugá! Num cuida que tu vai vê. Num cuida só pra tu vê

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Aos amigos tombados pela covid-19

O tom sombrio da mensagem Revela ingratas e nefastas notícias. A cada dia mais tristeza me abate Pela perda de tantas vidas, Pela perda de tantos amigos. Pela perda da inteligência Dos que pensava resilientes. Que dor amarga e contundente! Até quando esse pobre peito suportará Tanta perda e tanta inquisição de mim? Haverá tempo de abraçar os meus amigos, E os meus irmãos de sangue e os de coração? A dor me fará semente se nenhum me restar É dilacerante conviver com tanta perda assim.

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Quanto vale um amigo?

(ao meu amigo Fala, tombado pela covid-19)

Nessa jornada do tempo que parece longa, mas é tão pequena, Uns valem menos que uma cibalena. Outros, chafurdados na soberba e na arrogância da débil riqueza, Trocados por bosta, o dono da bosta tem prejuízo com certeza. Não se compra um amigo. O tempo esculpe no coração o verdadeiro amigo. Um verdadeiro amigo vale muito! Vale a gargalhada com a piada sem graça. A boa dose de vinho, cachaça ou de cerveja. Com tira-gosto de camarão, calabresa ou queijo gorgonzola Vale a companhia gratuita e sem nenhum interesse da hora. Vale cada centavo não pago na sessão de psicoterapia. Vale um longo papo com outros amigos na mesa da diretoria, Na orla do “P. Help”, no bar do Carlão ou do Herculano, Ou ainda, no domingo de manhã, café com pinga, no quiosque da Beira Rio. Escutar sorrindo a nova versão da história real Da viagem que fez na garupa do moto-boy-gay ou do flerte de refrega Com a sapatão que escapuliu pela janela no hotel do Chico Brega Contada cem vezes, cem vezes diferentes com notas de menestrel. Um amigo vale muito! Vale cada minuto da conversa fiada cheia de alegria. O amigo que parte poderia deixar um grande vazio Mas com tantas histórias que ficarão guardadas na memória Jamais ficará ausente nos encontros que era do nosso feitio O bon vivant! Não existe quem dele se queixe ou reclame, Fora, é claro, os maridos peiados pra evitar vexame. Todos nós passaremos, mas ele não passará, Vai deixar saudade, sim, mas não esquecimento da sua companhia, Haveremos sempre de lembrar das suas histórias divertidas Grande amigo Fala: “O Sargentário Procecutor de Alegorias”.

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Realidade passiva

Fantasias, verdades passivas Dos sonhos impuros por terra caídos Que roubaram as vidas. Devolvem ideal e coração moídos. Fantasias, realidades medonhas Tiradas do lúgubre pensamento. Alento aos que vivem morrendo Sem alma amor sentimento. . . Fantasias, verdade reais, Enquanto não vem os amores reais Calando o trôpego sofrer. Nos contra-tempos, contra-vidas Sonhos de doces sofismas. A verdade mais forte é morrer!.

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Lamento do sabiá

O Sabiá, que encanta o dia com sua suave melodia, dono da mangueira aqui da frente da minha casa, resolveu deixar a frondosa árvore um pouco de lado e fez um ninho bem embaixo do capote do meu telhado, com folhas secas de capim cidreira e galhos de alecrim. Junto à sua companheira, aos bicos com bicos e afagos, chocaram pequenos ovos que rebentaram dois machos. Era um vai e volta insano durante a tecelagem do ninho Então, quando os rebentos chegaram, não foi o fim. Voos rasantes e flutuantes como colibri, idas e vindas. Nos bicos, sementes, insetos e pupas de cupins. Tanto era o esmero com as crias que esbanjava alegria. Um dos rebentos, sajica que era, logo que criou asas, Num estalo do graveto, saiu voando em um salto só. Sob olhares atento, fez um voo sereno e bem alto, tão alto e rápido que a pressão lhe quebrou as asas, que caíram intactas sobre o telhado da minha casa. E, o que era alegre, tornou-se triste. Tristeza imensa de indelével saudade. E a chama incandescente se apagou. Fechou o tempo, fez-se escuridão! Mas, a semente plantada floresceu, incandesceu a vida n’alma devastada. O outro rebento, enfiou-se nas asas caídas, Quebrando os gravetos, bateu asas e voou. Segue certo de que as asas foram nascidas. Porém, são asas puramente postiças. Coberto de iniquidade e ingratidão Qualquer rumo lhe atiça. Vagueia por aí com aquelas asas caídas na amplidão do espaço, fora de compasso. Mente errante, cheia de ranço e cobiça. Volta o casal à velha e frondosa mangueira, Um tanto sem folhas e que já não é a mesma. O canto que vem de lá não é mais de alegria. É um triste lamento no alvorecer, durante a tarde ou no fim do dia. A cantiga que soava durante todo o dia, hoje não vai além de parcos segundos, se confunde com o trilo dos grilos na seca gramínea coberta de fungos. Ei, Sabiá! Finja ser o Bem-Te-Vi, Cante bem alto! Não fique na surdina! As nuvens passam, outras estações virão e tudo muda nesse nosso pequeno mundo. Ah, Sabiá! A vida é desse jeito mesmo! Também já tive um ninho e a mesma sina!

Avenida Raimundo Álvares da Costa, 329-A Centro    Macapá-AP

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