
Saudade
Saudade
Tantos rostos, tanta gente que passa... Largas ruas, avenidas e praças. Saudade se estreita e o tempo se esparsa. Tantos rostos, leves gestos, sem tantos jeitos. Universo imenso, um espaço sem fim. Lembranças marcantes do teu jeito de ser, Ainda palpitam forte no meu coração, Aperta o peito e engasgo de emoção. Na palavra falada, a foto estampada, A sementinha deixada, as crenças... tudo enfim. Me trazem constantes lembranças Do teu jeito, do teu rosto, dos teus planos, Do tempo em que te abraçavas a mim... Isso estará sempre presente em tudo aqui. E me deixam morto de saudade de ti.
Pé de pano
Pé de pano
Pra quem tá voltando pra casa de Uber, De bike, de busão, de bonde ou moto-táxi. Vai calminho, calminho, o amor é lindo, viu. Abre a porta de mansinho. O pé-de-pano tá pulando a sacada. Fala baixo e chama: “Benzinho”. - Casa que dois põe, não falta nada. Não falta nada, não falta não Não falta ripa, chuva de prata Nem sanduíche, nem frango assado, Não falta nada, não falta não. Fica no teu canto quietinho, Faz de conta que você não sabe nada. Fica alegre e chama: “Amorzinho”. - Casa que dois põe, não falta nada. Não falta nada, não falta não. Papai mamãe é muito amor Feijão com arroz, tem de montão Amor pra dois, de quatro então. Não falta nada, não falta não.
Catarina
Catarina
Passo displicente, um tanto insinuante. Caminhar envolvente... aquela saia curta e plissada... Num balanço faceiro e cheio de charme. Cabelos compridos na cor dos raios do entardecer, Iluminavam, qual um refletor, aquele corpo escultural. Pele sedosa num tom de canela. Sinuosamente desenhada, simplesmente linda. Caminhava num gingado.... afrodisíaco! Olhar conspirador, misterioso até. Que alterava o raciocínio e o batimento cardíaco. Do outro lado da rua um pretinho atrevido Pulava e se escondia e dizia: Psiu! Psiu! Um sorriso de Monalisa se desenhava Naquele rosto, naquele corpo esguio. Escultural e majestoso e sexy e sensual. Pertinho das seis, o olhar sombreava a esquina. Era ela que vinha destilando o doce e suave veneno, Num passo cadente cheio de graça na mesma rotina. E o pretinho atrevido do outro lado da rua, Sempre pulava e se escondia e dizia: Psiu! Psiu! Todas as tardes, ali espreitava aquela presença. Tantas fantasias, mas nenhuma eloquência. Depois de longa odisseia platônica, Uma onda de bravura em mim se instalou. É hoje! De hoje não passa! Agora eu vou! Não sei se por encanto ou maledicência, Catarina, era o nome dela, nessa tarde não veio! E o pretinho atrevido, que ficava do outro lado da rua, Também sumiu. Ali por perto nunca mais ninguém viu. Puxa! ... Eu devia ter feito aquele psiu!
Sombra e água fresca
Sombra e água fresca
Sabiá-Laranjeira, qual bem que te quis? Deixaste a cidade, pra onde tu foste rapaz? Fui pras virgens matas de encantos sutis. Lá tem fruta à vontade e eu canto demais. Tem amores “calientes”, assim vivo feliz! Lá eu danço, eu canto, eu bebo, de tudo se faz! Não tem barulho de moto, Nem tem cachorro latindo! Ninguém pedindo meu voto, Só natureza florindo. Lá, tem tudo que tanto mereço. Daqui, nem saudade me trás! Só quero descanso e muito sossego, Sombra, água fresca e um pouco de paz.
Enquanto a corda aguenta
Enquanto a corda aguenta
Enquanto a corda aguenta Ninguém se arrebenta Quando o Círio sai Todo mundo pisa no calo de alguém Quando o Círio vai Tudo é reza tudo é paz Tudo é fé Todo mundo quer todo mundo faz Uma promessa, Se tem fé alcança, Uma criança vai de anjinho sai. Uma pedra na cabeça Uma graça alcançada Uma bilha na cabeça Uma promessa paga Todo mundo vai Vai de pé descalço De joelho vai Vai meu povo vai E no carro dos milagres Mil e um feitos verdades Riso, choro e emoção É tamanha a devoção Que esse povo mal espera Uma nova procissão Cada um fiel por si Não precisa religião Só fé e paz no coração.
Versos por teimosia
Versos por teimosia
Um dia pensei que poderia ser poeta Um dia carregado de lembranças, De amores, de propósitos e grandes metas! Cantei tristezas, chorei alegrias. Tentei fazer versos de desalento E rimas por teimosia. Às mulheres, me fiz romântico. Aos outros, um tanto satânico! Nos rascunhos escrevia Quantas vezes fui feliz. No dia em que pensei que poderia ser poeta, Fique longe da rima e da métrica. Pensei num verso estelar, Pra mostrar que sei amar. Sem nenhuma palavra dizer. Bastaria só um verso escrever! Queria apenas um verso pra alguém Que não se importasse qual o tipo Se é branco ou bonito, Se tem ritmo ou compasso. Não precisa ler pra entender, Entende primeiro para depois ler E que não faça caso pelo caso que faço. Só queria nesse instante Ser um rude trovador. Um qualquer que cantasse À amante umas rimas de amor. Talvez eu nem precise de um verso! Um nome de mulher já encanta o Universo Não há trova, nem poesia. Mas há a prova de minha teimosia! Nunca serei poeta, nem escritor Nesse mundo pequeno, nessa ilha... Como hei de escrever um poema de amor, Ou apenas uma frase, um verso efusivo, Que rime com essa vida linda que vivo? — Não preciso ser poeta muito menos trovador, Existe um verbo que já é uma verdadeira poesia: Viver! Viver é realmente uma maravilha!
Chuva
Chuva
Chuva! Lava meu pranto da tristeza Da distância que me divide Que só se alonga e me separa Daquele beijo... daquela beleza... Chuva! Enxuga minhas lágrimas de saudade Transforma meu pranto em alegria Perfuma com os respingos de tuas gotas O corpo macio responsável por essa saudade. Eu me envolvo, eu me atiro Faço dela o meu viver, o meu abrigo Me encanto de desejos, de ternura Uma tempestade de doçura Chuva! Semeia o amor no coração Deixa florescer as plantas, Fecundando a terra dia a dia. Vida linda em cada palmo desse chão Cristalino beijo das gotas de alegria Abraço quente das tuas águas frias.
Contagiante
Contagiante
Quando o silêncio da noite encobrir os ruídos do dia, Quando os ruídos do dia calar pelo silêncio noturno, Quando as lágrimas tingirem os guizos da alegria, Quando o sorriso aberto enxugar essas gotas soturnas... Presente estará a euforia transcendendo as diferenças! Presente estará um sorriso largo intimidando a tristeza. Na gargalhada contagiante como um sorriso de criança, No jeito suave, na palavra certa, No toque esperto da esperança. No dia que não acaba, na noite que nunca passa... Marca indelével no corpo, na alma e na lembrança.
Rua sem lugar
Rua sem lugar
O grito no ar é o mesmo O gesto da mão continua A gente no chão não tem jeito A ter a terra a Deus dará Quanto tempo custa, Quanto tempo falta pra ser Quanto tempo passa, Quanto tempo falta pra ser Um prato quebrado Um bolso rasgado E o umbigo no fogo Um bolso quebrado Umbigo rasgado E um prato no fogo A lua no céu não é mais um verso O verde perdeu a esperança Os lábios não são mais de mel E a terra perdida no universo Deixando o corpo à morte E a sorte a este chão O que será da Terra sem Lua Da Lua sem luar O lar na rua e a rua sem lugar