
Poesias Recitadas
Tudo será como antes
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Adaury Farias
Tudo será como antes
Saudade se parece com dengo de criança Quando machuca o dedo. Só passa com chamego, beijo e abraço. Quando distante o peito aperta, Quando perto o coração sossega. Como ainda não dá pra estar por perto, Fico relembrando nosso último abraço apertado Para diminuir a saudade nesse momento nefasto. Esse afastamento não vai demorar. Logo, logo vai passar. Logo passa... Aí, pro nosso contentamento, nada de “novo normal”! Certamente tudo vai ser igual como era antes. E estaremos, de novo, lado a lado. Presentes. Olho no olho. Com aperto de mão, beijo, dengo, chamego e abraço, Sorrindo e relembrando que tudo passa, tudo passa! E, vitoriosos, vamos estancar a dor da saudade Vivendo intensamente cada pequeno instante. Reconquistando nosso espaço Pra tudo ser e voltar como era antes.
Joaquina
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Adaury Farias
Joaquina
Ontem quando fui sair, pela manhã, A moto não funcionou, então levei pra oficina, O mecânico logo falou: colocaram sal na gasolina. Humm... isso foi coisa da Joaquina Pra me deixa longe de casa, fazer a limpa E fugir com o Bianor. E agora o que é que eu faço? Tô no mato sem cachorro. Sem ela não consigo dar um passo. Como vou pedir socorro Pra sair desse sufoco? Perdi a conta de quantas a danada já me fez. Dessa vez foi pior, levou tudo que eu tinha. Levou o espelho, o gás de cozinha, A renda da venda das sacolinhas, Minha calça jeans, meu celular... Tenho certeza que foi pra dar praquele safado. Até o pó de café e o açúcar mascavo A messalina levou! Levou tudo e me deixou liso outra vez. Liso, liso sem nenhum puto centavo! Tomaz, que deixou a batina E hoje é “ex’ da Joaquina E também já viveu essa amargura, Quando me viu meio descaído, Tomou um gole de cachaça, rio da minha desgraça, E com toda experiência de vida, me disse: “Bambino, deixa de frescura, Não chore, não foi a primeira vez. Também já passei por essa fissura! Espere que a grana dela vai acabar. Não sofra por essa meretriz. Ela vai voltar cheia paixão e ternura! E quando esse dia chegar, Deixe o povo todo falar Não faça como eu fiz, Perdoe a cretina, sorria de novo. E com Joaquina, volte a ser feliz!”
Machado não corta mais lenha de labareda
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interpretada por Eury Farias
Machado não corta mais lenha de labareda
Cepas rachadas pelo fio do machado Empilham o pequeno abrigo de palha. Fogão a lenha, ferro a brasa, Acesos na cozinha e na sala. Um aquecia a vida, outro o paletó e a saia. Fogo e brasa. Exultantes. Cheios de graça! Deles, a mata não sentiu nenhuma falta. Espalhavam o brilho, a alegria e a vida, Com forte calor e doce cheiro de fumaça. Ferro elétrico, micro-ondas, gás butano... Reduziram o tempo do abano ao fogo e à brasa. Correntes de motosserras agora cortam os troncos. Em toras se vão, trocando o verde por espaços em branco. Machado não racha mais lenha de labareda Com a higidez de sua lâmina mutante, Corta a alma que vê a mata exuberante, Mofina de fadiga, tornar-se mórbida vereda.
Última viagem no último vagão para Serra do Navio
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interpretada por Paulo Bezerra
Última viagem no último vagão para Serra do Navio
(Piuiiiii ... Piuiiiii ... Piuiiiii ...) Lá vem o comboio! Vem depressa, vem no trampo e vem que vem. Vagões carregados com carga pesada! Toneladas e mais toneladas! Bem pesadas? Mal pesadas? São levadas! O dique de alto calado de fundo barrento. Esteira rolante não para um só momento, Embarca negras lágrimas de uma terra valente Ficando lá atrás uma serra um tanto demente. Lá vai o comboio... (Piuiiiii ... Piuiiiii ... Piuiiiii ...) Deixando um corte no seio da mata. O zunido do aço das rodas nos trilhos Ecoa distante num canto do mapa. O porto afogado, agora agoniza. O trilho de ferro, em feixe amarrado, vira brisa. Um caso obscuro, um fato obsceno. Sem bilhetes, sem embarque ou desembarque. Na mão o aceno, no olhar um horizonte vazio. Perdeu, playboy! Não resta bagagem! Foi tudo a reboque. Na última viagem, no último vagão para a Serra do Navio.
Streptease
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interpretada por Cid Moreira
Streptease
(Música livre, cochichos, vinhetas, Risos, drinques, cervejas...) No palco aberto, Despindo-se silenciosamente, Entre sombras e raios de luz: Ela! Intrepidamente nua! Sensualmente bela! Estonteante aos que a veem. Vulgar, aos sexistas que a ignoram. Murmúrios, clics, “flashes”... Não a intimidam no suave E sereno “striptease”. E cada vez mais nua, Mais linda, mais pura. Um ao longe se encanta. Outro a desdenha. Aquele outro ainda se levanta, Fotografa e se apaixona. O bêbado desatento pergunta: - Quem é? Quem é? - É lua cheia emergindo suavemente do Amazonas.
A dança do guará com o bicho preguiça
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interpretada por Deury Farias
A dança do guará com o bicho preguiça
O fogo se foi, restaram nuvens de muita fumaça. Num galho mais alto, vermelho, só o Guará. Verde era o campo, agora tão negro! Num tronco enterrado, aos poucos desponta, Com olhos molhados, o Bicho Preguiça. Os dois desgarrados, no resto de brasa. Guará, exultante, não canta nem pia. O Bicho Preguiça, em sincronia, nem assobia. Guará convida o Bicho Preguiça, “pruma” rápida dança. Os dois se entrelaçam, sobreviventes daquela triste agonia. O vento se envolve e orquestra o ritmo da festa. Toca rock, funk de rua, batuque, marabaixo. O fogo se alastra na brasa que resta Os dois agarrados não saem do primeiro passo Cai por terra a esperança e tudo se acaba. A dança do Guará com o Bicho Preguiça Quão interessante neste instante seria?! O vento muda o ritmo com todo afã E inicia a segunda sonata de Chopin ...
Pé de moleque
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interpretada por Deury Farias
Pé de moleque
No chão limpinho do terreiro, Balões e bandeirinhas de papel. Dança de roda e roda que roda. Cavalheiros dançando, tirando o chapéu. Cantigas brejeiras. Um grito que diz: “Olha pamonha! Olha canjica!” O vento espalha calor e fumaça, Fagulhas de estrelinhas pelo céu! Guizos de alegria se misturam Com estrondos de festim. Saias rodadas ensaiam: “A lavadeira faz assim, assim, assim...” Calças velhas remendadas... “Passa-passa gavião, todo mundo passa...” Aluá de abacaxi, quentão, Fogos de artifícios de montão! Passa fogueira de mãos dadas. Santo Antônio disse, São Pedro confirmou Que você vai ser minha namorada Que São João mandou. Corrida no saco. Vinte e um. Quebra-pote. Pau-de-sebo... Prende todos na cela dos desejos! Paga prenda, rouba beijo, põe todos na prisão. Corpo quente, agitado, Passa em frente, passa bastão. Estalinho corre solto pelo chão, Pega no pé, pé-de-moleque. Pula fogueira, corre e grita... Mundo encantado é festa de São João.
Pérola com íris avelã
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interpretada por Adaury Farias
Pérola com íris avelã
Para Elise, minha neta, escrito antes da pandemia de covid-19
Criada pelo destino com muito cuidado e muito esmero, Linda e delicada com se fosse uma pérola mesmo. Depois de rir, de brincar e espalhar carinho, Salta pro colo da vó e se aconchega bem de mansinho. Ali relaxa e se entrega ao sono profundo. A imagem do sorriso, naquele rostinho lindo, Revela que aquele colo é o melhor lugar do mundo. Depois, dormindo entre travesseiros, parece sonhar... Parece uma modelo saída das telas de Renoir. De manhã, os raios fúlgidos do sol, Que invadem a janela num clarão de ciúme fugaz, Flagram nós três agarradinhos sob o lençol. E então ela desperta com um sorriso sagaz Atenta à saudação que lhe fazem os bem-te-vis e sabiás. Seus olhinhos ao se abrirem, com suas íris avelã, Iluminam nossa manhã com encanto e alegria, Cativando nossos corações ao acordar sorrindo, Contagiando com graça e amor outro dia de domingo.
Acasalamento dos biguás sobre a Pedra do Guindaste
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interpretada por Gleury Farias
Acasalamento dos biguás sobre a Pedra do Guindaste
Olhar firme, sempre atento. Vigilante da vida e de tudo ao redor. Em inusitado momento, sem que se espante, Em voo rasante, com um trinar, um tanto seco, Sem se importar com aquele sujeito, Uns chamam de mergulhão, outros de biguá, O fato é que eles vêm de longe, De muito longe, vêm além-mar. Sentam-lhes no ombro, cagam-lhes na cabeça. Pacífico e incólume, só observa. E ali mesmo, um tanto fuinhas, acasalam. Depois, em duplas, voam rumo aos aturiás. Montam seus ninhos... Eclode a vida! No tempo certo retornam para o mesmo ato Cheios de estardalhaços em ligação simbiótica. Frenéticos, voltam com a mesma dança erótica! Repetem contentes a prática da última parte Com o consentimento atento do eterno Vigilante. Completa-se assim o ciclo sobre a Pedra do Guindaste.
A raça
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interpretada por Adaury Farias
A raça
Ao lado do vaso com rosa do deserto Vi um gato com cara de sapo. Um pouco mais à sua frente, Outro com cara de cachorro-quente. Talvez, um estivesse com fome e, O outro, quem sabe? O prato da vez. O primeiro, incrivelmente, coaxava. O segundo, parecia que latia. Num pulo subiram no muro, Que estava revestido com unha-de-gato, E, em cima do telhado da garagem, Tête-à-tête, foram às vias de fato! Em estridente e bizarro cenário, Como duas lagartixas, se entrelaçaram. Era fogo ardente, sem chama, sem fumaça... Parecia rixa entre dois kamikazes! Quando dei fé, já tinham feito as pazes. E, juntinhos, cochilavam no tapete da sala. Cada qual com seu modo de garantir a raça.
Umbilical
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interpretada por Adaury Farias
Umbilical
À minha Mãe Deusolina Salles Farias (Adaury Farias) Lá se vão tantos anos e lembranças do tempo de eu criança, ainda me enchem de alegria. Na mesa da sala, aquela mão macia, apoiando a minha que, sem coordenação motora, cobria de qualquer jeito as letras pontilhadas do caderno de caligrafia. Ainda ouço aquela voz suave me fazendo repetir, uma a uma, as cinco palavrinhas mágicas, tão simples e perfeitamente adequadas, que desde lá repito de maneira automática. Como esqueceria aquele sorriso largo e o olhar reluzente de imenso entusiasmo, que se abriu, ao me ouvir, pela primeira vez, soletrar sozinho, o nome completo de uma loja da rua? Mas também não esqueço o singelo olhar a me corrigir quando deslizava entre as frases. Um dia, inda menino, quando dei fé, me fiz de adulto e parei de chorar ao perceber que a dor maior era nela e não no machucado do meu pé. E a partir de então vi que nunca estive sozinho na alegria ou na dor. Parecia que o cordão umbilical ainda estava ali, pois tudo nela se refletia. O tempo dispara e nos separa pelo tom das frontes: uma castanha, outra encanecida. No percurso da vida, paixões e amores se instalam e aos poucos desabam como terras caídas. Nesse tempo turvo, egoísta que sou, o que me marca é não tê-la aqui pra aliviar a minha dor. Só o amor dela tinha o poder de nunca acabar, um amor eterno, fiel e incondicional.